domingo, 31 de agosto de 2008

Eugénio de Andrade

DO OUTRO LADO


Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direcção das nascentes.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

O bom e velho Hesse (1877 - 1962)

A um amigo com o livro de poesias


O que me empolgou sempre e me alegrou
desde os lendários dias de rapaz,
toda essa distraída e multifária
dispersão entre inspiração e sonho,
entre orações, clamores e lamentos
- nestas páginas voltas a encontrar.
Se elas são oportunas ou inúteis,
não vamos muito a sério perguntar:
aceita como amigo os velhos cantos!
Para nós, já maduros, a demora
no passado é lícita e confortante:
por trás dessas mil linhas desabrocha
uma vida, algum dia deliciosa.
Ao nos pedirem contas por nos termos
ocupado com tais futilidades,
suportaremos um fardo mais leve
que os aviadores atroando as noites,
e as tropas, e os rebanhos dessangrados,
e os senhores da terra e os potentados.


Andares, trad. de Geir Campos, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1976.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Um pouco de Manuel Bandeira

O Rio


Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranqüilas.



Poema Só Para Jaime Ovalle


Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.



Brisa


Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.



O Martelo


As rodas rangem na curva dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.

Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.


Poemas extraídos de Estrela da Vida Inteira,7ª ed., José Olympio Ed., 1979.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Yvette K. Centeno

A MEMÓRIA É UM NOVELO

Novelo

de pequenas
artérias
rebentadas

por ali
escorre
a memória

a pulsação
que dói

quem não recorda
não vive

não desenrola
o fio
que redime




PAUL CELAN

1.
Cultivemos a planta
do silêncio: negro-musgo.
Dizer o nome
é perturbar o sono

Deixemo-lo
que se afunde
nas suas águas mortas.


2.
O destino
essa flor que se abre
raiz plantada no ar


3.
O amor é uma travessia?
O amor é um afundamento


4.
Quantos poemas
para salvar o dia
Quantos poemas
para salvar a vida



Entre Silêncios, Pedra Formosa Edições, Guimarães, 1997
Yvette K. Centeno, é autora de poesia, teatro, ficção, literatura infantil e ensaio.
Administra dois excelentes blogs: Literatura e Arte e Simbologia e Alquimia. Vale a pena visitá-los. O primeiro deles está em um link neste blog.

sábado, 24 de maio de 2008

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

TORSO

Torcendo o torso virava o volante da escavadora
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas

Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos do Pérgamo

Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos



MEIO-DIA


Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo,
Parece bater palmas.


Poemas Escolhidos, Seleção de Vilma Arêas, Companhia das Letras, São Paulo, 2004


Ps. Transcrevi o poema tal e qual se encontra no citado livro. Entretanto, creio que uma vírgula foi omitida no verso "E o mar imenso solitário e antigo,"; tudo me leva a crer que entre imenso e solitário deve existir a vírgula.
Favor me corrigirem.