sábado, 15 de agosto de 2026

Ré menor 


Final do décimo setênio da jornada.

Cresce o vento

no domingo de sol.

Sobro vibrante no oboé

segundo movimento de Marcello.

Ipês e cássias rejubilam.


Alessandro Marcello...

Tantos anos esquecido

reencontrado agora

sazonados porventura 

meus ouvidos, minha alma.


Vento no domingo

na madeira sonora

leva e traz meu coração 

reconciliado.


Meu coração de outrora

afoito no zênite dos dias

hoje

na palma de um domingo

repousa.

Ventos violentos

do sul e norte

de leste e oeste

não mais me levareis.


Ipês e cássias ao vento...

O sol que tudo invade...

Meu coração que tanto

tão pouco abarca...



Para não esquecer


        Mochila, farnel, barraca. Ônibus com mil e um destinos, mas sempre o mesmo destino: mar, areia, pesca nas madrugadas, meninas praianas, cerveja, caninha, sol, bronze na pele.

      Ainda uma vez, pescar. Café nas garrafas térmicas, Zezé, seu pai e eu. Lançar as redes, recolher, embarcar os peixes, ver o sol nascer, deitar na areia a prateada colheita, vender, levar os melhores para casa, assar, comer, dormir.

        Aos dezessete anos, o mundo largo, sem fim para todos os lados.

        Aquela menina que me visitou na barraca: mas qual era o nome dela? Mal sentou-se sob a lona, quase não conversamos e ela se foi repentinamente. Até hoje me pergunto: por quê?

        Já o dia findara. Acendi minha fogueira, e mais um cigarro; olhava o mar escuro, tranquilo tal uma lagoa, espelho sem luz. Ali fiquei, bebendo.

        Mas sempre amanhece. Acordei de ressaca. Em vão me chamaram para a pesca, na madrugada. Melhor assim. O mar já não era uma lagoa. E eu, apenas um garoto triste e tonto.

        Procurei a menina pelo arraial. Olhares me seguiam. Podia senti-los. Ao cabo, não a vi...

        O que fiz de errado? Não toquei na menina, pesquei com proficiência, bebi com os homens, repartimos os peixes, cantamos, nos embriagamos. Fui aceito na mesa da casa de meu amigo Zezé Cabeleira, dono do barco onde pescávamos. Conheci sua esposa e filhos.

        Foi a última vez em que desmontei minha barraca naquela praia. O porto já estava em construção, e os anjos, em migração...

        Adeus, meninas praianas! Zezé, o sol, o sal, minha barraca, farnel, mochila, e meus dezessete.

        





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