Do ideal e do possível
Machado de Assis, em seu conto "Um homem célebre", nos apresenta um drama que penso atormentar a muitos artistas.
A narrativa machadiana focaliza a frustração de um compositor popular que, sem esforço, quase como quem respira, tira ao piano polcas leves e ligeiras. Tão logo publicadas, caem no gosto do público; mas seu desejo profundo é compor algo mais 'subido', mais ao nível de seus ídolos musicais: Mozart, Beethoven, Gluck e outros luzeiros de igual grandeza.
Pestana (esse é o nome do nosso sofredor) porfia longas horas noturnas com o piano, mas tudo o que dele extrai, por força da obstinação, é pífio, ou um plágio involuntário de seus ídolos. Suas polcas, no entanto, brotam fluidas. Mas Pestana quase as desdenha; ele quer 'a grande música'... Não basta a ele o sucesso de suas composições, executadas nos bailes e assobiadas cidade afora, e que lhe garantem o pão. Pestana almeja mais: entrar no Panteão dos Grandes e ser lembrado pelos séculos dos séculos. O sucesso junto a seus contemporâneos pouco significa: ele mira o futuro. Assim, de polca a polca, vai Pestana tocando a vida, até que uma febre perniciosa o liberta, por fim, e ele morre 'bem com o mundo, mal consigo mesmo'.
Trazendo a reflexão sugerida por Machado para este texto: todos - em princípio - podem, em algum momento, decidir dedicar-se à arte, seja ela qual for. Porém, ninguém é capaz de decidir tornar-se um grande artista. Ademais, a valoração das artes (antigamente, Artes Maiores, Artes Menores), assim como a valoração dos artistas, é algo absolutamente subjetivo e modifica-se ao longo do tempo, como nos tem mostrado a história da arte.
Julgo que alguns artistas têm o talento e o gênio suficientes para realizar seu desejo e sua necessidade de expressão artística. E o que se espera do artista? Que nos confirme nossas crenças, nosso gosto estético, nossa visão de mundo? Ele cria porque precisa criar; não está visando um determinado público. O artista cria algo a partir de tudo aquilo que o tocou, impregnou sua sensibilidade; e precisa fazer isso, dia após dia, ainda que sob condições adversas e talvez com fome.
Mas, ao levar à sociedade o resultado de seu trabalho, de suas descobertas e perplexidades, é humano, demasiadamente humano, desejando receber alguma atenção, algum reconhecimento. Mais que isso, e antes, o artista quer poder viver de seu trabalho, para o seu trabalho, e como todos os viventes, precisa dar sustento ao corpo.
Pestana conseguia, simultaneamente, sustentar-se e granjear popularidade com o seu trabalho. Era, sem dúvida, um mestre na polca, apesar de si mesmo. Seu mal era ter um grande, um enorme desejo de compor melodias sublimes sem ter o gênio para tanto. Fico a imaginar quantos Pestanas existirão pelo mundo, amargurados, em demanda de um Graal desde sempre inalcançável...