quinta-feira, 27 de agosto de 2026

AS PALAVRAS


São como um cristal,

as palavras.

 Algumas, um punhal, 

um incêndio.

Outras,

orvalho apenas.


Secretas vêm, cheias de memória.

Inseguras navegam; 

barcos ou beijos,

as águas estremecem.


Desamparadas, inocentes,

leves.


Tecidas são de luz

e são a noite.

E mesmo pálidas

verdes paraísos lembram ainda.


Quem as escuta? Quem

as recolhe, assim, cruéis, desfeitas, 

nas suas conchas puras?


Eugénio de Andrade

sábado, 22 de agosto de 2026

Descanso  ao Meio-dia


Sol alto, descansar, pálido, absorto,

junto ao muro em ruinas de algum horto, 

ouvir entre os espinhos incidentes

de melros, estalidos de serpentes.

Pelas gratas do chão, na trepadeira,

espiar as formigas peregrinas 

que se dispersam ou se vão cruzando

nas encostas de mínimas colinas.

Quando de cimos altos se sentir

as trêmulas cigarras a zinir,

entre as folhagens, perceber o mar

escamoso, ao longe, a latejar.

E caminhando ao sol que nos navalha,

sentir, com nosso triste alumbramento,

como é toda existência e sua estafa,

neste prosseguimento, uma muralha

que têm em cima cacos de garrafa.


Paulo Mendes Campos, Diário da Tarde, Civilização Brasileira/Massao Ohno, 1981


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

DO OUTRO LADO


Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direção das nascentes.


Eugênio de Andrade, Memória Doutro Rio, Editora Limiar, abril de 1978.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

CARTA


Por qual palavra começar, caro amigo...

Por qual angústia, temor, lembrança?

Vejo homens e mulheres que trabalham para a Cidade e moram no desterro; as mulheres que não servem à Cidade, de tempos em tempos levam em seu ventre os futuros homens, as futuras mães. Em frente a um tanque de roupas ralas, ralam o ventre, e algumas cantam.

Sim, algumas cantam, amigo!

Quando finda o dia os homens se encontram nas tascas, e já tarde da noite, bêbados, trazem um minguado dinheiro e se julgam senhores e as mulheres com eles se deitam, mas não cantam. Elas nem mesmo gozam, os homens rapidamente já roncam a seu lado.

Ah, meu amigo, estou a generalizar...

Os trens. Eu descia para a Cidade. O trem para Santa Cruz passou abarrotado, sem luz, no lusco-fusco do dia. Isso eu vi, não foi hoje, mas há 50 anos. Vi também homens e mulheres e jovens e crianças atravessando os trilhos. E agora, todas as manhãs, logo cedo, ouço no rádio que homens, mulheres, jovens e crianças ainda atravessam os trilhos, as composições se atrasam ou não chegam, os cabos são roubados, as estações são depredadas, e ninguém mais suporta. Mas a tarifa aumenta.

Ah, amigo! Somos ingênuos? Ou cegos, surdos, mudos?

No conforto de nossa casa, cercada por muros, e com treze poderosos gatos vigiando, noite e dia, as redondezas, julgo estar em segurança...

Não muito longe de nós, entretanto, os cânticos monocórdios do rap e do funk, nas madrugadas de sexta a domingo, enviam claras mensagens...



domingo, 16 de agosto de 2026

        Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie  - nem sequer mental ou de sonho - , transmudou-se -me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintática, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.

        Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, tremulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.

        Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa seleta o passo célebre de Vieira sobre o Rei Salomão. "Fabricou Salomão um palácio..." E fui lendo, até ao fim, tremulo, confuso; depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfonica.


Bernardo Soares (Fernando Pessoa), fragmentos escolhidos do "Livro do Desassossego"