segunda-feira, 10 de agosto de 2026

 Do ideal e do possível


        Machado de Assis, em seu conto "Um homem célebre", nos apresenta um drama que penso atormentar a muitos artistas.

            A narrativa machadiana focaliza a frustração de um compositor popular que, sem esforço, quase como quem respira, tira ao piano polcas leves e ligeiras. Tão logo publicadas, caem no gosto do público; mas seu desejo profundo é compor algo mais 'subido', mais ao nível de seus ídolos musicais: Mozart, Beethoven, Gluck e outros luzeiros de igual grandeza. 

             Pestana (esse é o nome do nosso sofredor) porfia longas horas noturnas com o piano, mas tudo o que dele extrai, por força da obstinação, é pífio, ou um plágio involuntário de seus ídolos. Suas polcas, no entanto, brotam fluidas. Mas Pestana quase as desdenha; ele quer 'a grande música'... Não basta a ele o sucesso de suas composições, executadas nos bailes e assobiadas cidade afora, e que lhe garantem o pão. Pestana almeja mais: entrar no Panteão dos Grandes e ser lembrado pelos séculos dos séculos. O sucesso junto a seus contemporâneos pouco significa: ele mira o futuro. Assim, de polca a polca, vai Pestana tocando a vida, até que uma febre perniciosa o liberta, por fim, e ele morre 'bem com o mundo, mal consigo mesmo'.

                 Trazendo a reflexão sugerida por Machado para este texto: todos - em princípio - podem, em algum momento, decidir dedicar-se à arte, seja ela qual for. Porém, ninguém é capaz de decidir tornar-se um grande artista. Ademais, a valoração das artes (antigamente, Artes Maiores, Artes Menores), assim como a valoração dos artistas, é algo absolutamente subjetivo e modifica-se ao longo do tempo, como nos tem mostrado a história da arte.

               Julgo que alguns artistas têm o talento e o gênio suficientes para realizar seu desejo e sua necessidade de expressão artística. E o que se espera do artista? Que nos confirme nossas crenças, nosso gosto estético, nossa visão de mundo? Ele cria porque precisa criar; não está visando um determinado público. O artista cria algo a partir de tudo aquilo que o tocou, impregnou sua sensibilidade; e precisa fazer isso, dia após dia, ainda que sob condições adversas e talvez com fome.

                Mas, ao levar à sociedade o resultado de seu trabalho, de suas descobertas e perplexidades, é humano, demasiadamente humano, desejando receber alguma atenção, algum reconhecimento. Mais que isso, e antes, o artista quer poder viver de seu trabalho, para o seu trabalho, e como todos os viventes, precisa dar sustento ao corpo.

                    Pestana conseguia, simultaneamente, sustentar-se e granjear popularidade com o seu trabalho. Era, sem dúvida, um mestre na polca, apesar de si mesmo. Seu mal era ter um grande, um enorme desejo de compor melodias sublimes sem ter o gênio para tanto. Fico a imaginar quantos Pestanas existirão pelo mundo, amargurados, em demanda de um Graal desde sempre inalcançável...



 O desconhecido 

  

        Dez horas da noite. Me preparando para dormir. Alguém chama meu nome por três vezes no portão. Acendo a lâmpada do portão. Vou à janela. Não reconheço a voz. Não reconheço o rosto. Pergunto: quem é você? Ele responde: não me conhece mais? Digo: não, não conheço. O que você quer? Ele: você não lembra daquele dia em que nos conhecemos lá no bar do Zé? Respondo: absolutamente não. Ele fala: deixa disso, amigo... tá de brincadeira? Digo: você é que está de brincadeira. Por favor, me deixe ir dormir. Diz ele: é muito cedo para alguém como você. Não lembra das noitadas, das caminhadas nas madrugadas, dos pileques? Falo: francamente, não. Não gosto de boemia. Aí ele gargalha, gargalha... Eu começo a ficar irritado; digo a ele que vá embora antes que eu solte os cachorros. Ele diz: sei que você não tem cachorros, só gatos... Eu comigo mesmo: cacete, que intruso... deve estar me vigiando dia e noite, sem que eu saiba. Então falei: mas posso chamar os PMs. Ele: isso seria muito interessante, amigo. Eu: como assim interessante? Ele: chama eles, e você vai ver... tenho comigo várias fotografias das nossas peripécias: invertendo os dizeres dos filmes nas placas do cinema, puxando carros, bebendo e escapulindo dos bares sem pagar, panfletos nos postes com mensagens obscenas e tantas outras coisas...

        Fiquei embasbacado... Como eu poderia ter participado disso? Falei: você tem DE FATO essas fotografias? Ele: estão aqui comigo. E também tenho outras provas, tais como placas de trânsito, placas de carros, cinzeiros de bares, tulipas, canecas... Quer verificar antes de chamar a PM? Longo silêncio meu... Ele: E aí? Não tem coragem de ver o que tenho sobre nós? Mais um silêncio meu... Falei: Tá bem; vou ao portão para conferir. Mas não vou abrir o portão. Ele: quando você vier, vai abrir o portão, com certeza.

        Fui. Vi. Abri o portão: era a minha Sombra.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Escrevo à mão, lentamente, como no tempo dos cadernos de caligrafia. Muitas vezes durante a tarefa, eu olhava pelas largas janelas da Escola, defronte ao Parque, e imaginava heroicas  aventuras, me encantava com a luz e sombras das árvores, acompanhava os voos dos pardais. Mas a professora logo me trazia de volta ao trabalho. Retomava o caderno, preenchia mais algumas linhas, nem sempre com capricho, e aguardava ansioso o toque da sirene para o recreio. E o caderno de caligrafia era fechado rapidamente com prazer. Naturalmente, ainda não dava importância a esse exercício enfadonho...

Mas eu quase não descia para o recreio. Merenda feita por minha mãe: pão francês canoa com ovo mexido e uma garrafinha com Nescau. Não pedia a ela para mudar a merenda. Ainda hoje aprecio pão francês canoa com mexido e Nescau...

Estudei na Escola dos 7 aos 10 anos; morávamos em uma casa perto à Escola, e caminhava indo e voltando para casa. Aos 9 anos, mudamos para um apartamento onde fora minha primeira casa, também perto da Escola. Gostava de caminhar.

Quando terminavam as aulas, circulava no Parque observando as árvores, os patos nos laguinhos, os barrigudinhos buscando farelos de pão que eu jogava para eles. Também me aventurava nas quadras ao redor do Parque. Mas um dia, demorei demais a chegar em casa. Minha mãe, é claro, ficou aflita, e pediu ajuda a um vizinho amigo que morava no prédio ao lado. Ele estava aposentado e tinha um carro. Foram pelas ruas a me procurar. Não demorou muito a me encontrarem. Minha mãe, em prantos, suplicando que eu não mais fizesse isso. Apenas me abraçou. O senhor me olhou com um viés aterrorizante...

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

"Não  percebi, a princípio, o momento em que transpus o limiar desta vida. 

Que força foi essa que me fez despontar neste imenso mistério, como um botão de flor numa floresta à meia-noite?

Quando, pela manhã, olhei para a luz, senti logo que eu não era um estrangeiro neste mundo; que o insondável, que não tem nome nem forma, me tomara em seus braços sob a forma de minha mãe.

Assim também, na morte, o mesmo desconhecido há de aparecer-me, como alguém que sempre conheci. E porque eu gosto desta vida, sei que também gostarei da morte.

A criancinha, quando a mãe a retira do seio direito, chora, para logo depois achar no seio esquerdo o seu consolo."


"GITANJALI" de Rabindranath Tagore

Tradução de Guilherme de Almeida


Gláucia Martins Chaudon, filhos, netos e bisnetos, 

Luciana Clara Margarida Chaudon, irmã, e demais membros da Família, sensibilizados, desejam expressar a mais profunda gratidão pelo apoio e consolo recebidos por ocasião do falecimento de seu querido Patriarca,

Gilberto Emilio Chaudon

Confiamos que ele já desfruta da Paz dos justos.

25/12/2002

sábado, 24 de abril de 2021

 

Padre Antônio Vieira: AMOR E TEMPO Tudo cura o tempo, tudo faz...

AMOR E TEMPO
Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera !
São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor ?! O mesmo amar é causa de não amar e o ter amado muito, de amar menos.

 Texto clássico, sujeito a controvérsias...