domingo, 16 de agosto de 2026

        Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie  - nem sequer mental ou de sonho - , transmudou-se -me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintática, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.

        Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, tremulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.

        Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa seleta o passo célebre de Vieira sobre o Rei Salomão. "Fabricou Salomão um palácio..." E fui lendo, até ao fim, tremulo, confuso; depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfonica.


Bernardo Soares (Fernando Pessoa), fragmentos escolhidos do "Livro do Desassossego"

sábado, 15 de agosto de 2026

Ré menor 


Final do décimo setênio da jornada.

Cresce o vento

no domingo de sol.

Sobro vibrante no oboé

segundo movimento de Marcello.

Ipês e cássias rejubilam.


Alessandro Marcello...

Tantos anos esquecido

reencontrado agora

sazonados porventura 

meus ouvidos, minha alma.


Vento no domingo

na madeira sonora

leva e traz meu coração 

reconciliado.


Meu coração de outrora

afoito no zênite dos dias

hoje

na palma de um domingo

repousa.

Ventos violentos

do sul e norte

de leste e oeste

não mais me levareis.


Ipês e cássias ao vento...

O sol que tudo invade...

Meu coração que tanto

tão pouco abarca...



Para não esquecer


        Mochila, farnel, barraca. Ônibus com mil e um destinos, mas sempre o mesmo destino: mar, areia, pesca nas madrugadas, meninas praianas, cerveja, caninha, sol, bronze na pele.

      Ainda uma vez, pescar. Café nas garrafas térmicas, Zezé, seu pai e eu. Lançar as redes, recolher, embarcar os peixes, ver o sol nascer, deitar na areia a prateada colheita, vender, levar os melhores para casa, assar, comer, dormir.

        Aos dezessete anos, o mundo largo, sem fim para todos os lados.

        Aquela menina que me visitou na barraca: mas qual era o nome dela? Mal sentou-se sob a lona, quase não conversamos e ela se foi repentinamente. Até hoje me pergunto: por quê?

        Já o dia findara. Acendi minha fogueira, e mais um cigarro; olhava o mar escuro, tranquilo tal uma lagoa, espelho sem luz. Ali fiquei, bebendo.

        Mas sempre amanhece. Acordei de ressaca. Em vão me chamaram para a pesca, na madrugada. Melhor assim. O mar já não era uma lagoa. E eu, apenas um garoto triste e tonto.

        Procurei a menina pelo arraial. Olhares me seguiam. Podia senti-los. Ao cabo, não a vi...

        O que fiz de errado? Não toquei na menina, pesquei com proficiência, bebi com os homens, repartimos os peixes, cantamos, nos embriagamos. Fui aceito na mesa da casa de meu amigo Zezé Cabeleira, dono do barco onde pescávamos. Conheci sua esposa e filhos.

        Foi a última vez em que desmontei minha barraca naquela praia. O porto já estava em construção, e os anjos, em migração...

        Adeus, meninas praianas! Zezé, o sol, o sal, minha barraca, farnel, mochila, e meus dezessete.

        







 Um pequeno livro lançado em 2024. Vou enviar alguns poemas e poemas em prosa.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Janela aberta 


Vontade de escrever um poema.

Como Drummond, talvez?

Não, não me atreveria...

Apenas um poema

que dissesse tudo aquilo

que já foi dito

e ninguém escutou, ao que parece.

Algo há milhares de anos já sabido.

Algo que nos roça a pele, e passamos.

Passamos atribulados, endividados, explorados

e não vemos.

Meus sapatos são mesmo muito meus...

Houve um pássaro

azul e doido

que se esfacelou na asa do avião

disse Drummond, contrito,

em um momento de terrível confissão.

Sim, meu Mestre, e essa confissão é universal.

Triste farol da Ilha Rasa, que assinala o Sul-Norte

no alinhamento com o farol da Laje.

As barcas Rio-Niterói cruzam essa linha dia e noite, anos a fio,

e quantas vezes busquei aquele exato instante...

O aeroporto em frente nos dá lições de partida

disse Bandeira.

Mas uma voz nos diz: 

no fundo do desespero, contra tudo,

há uma janela aberta, iluminada.




        O grande  relógio defronte à praça marcou seis horas enquanto eu a atravessava. Na larga avenida que margeia a praia o trânsito estava lento. Nos ônibus lotados as pessoas voltavam para casa. Nas pistas em direção ao Centro o movimento era mais tranquilo, mas sobre tudo, pairava um clima tenso, nervoso.

        Sentei-me em um banco junto à grande amendoeira e olhei para além do burburinho, para o outro lado da baía, onde o sol já se escondia entre nuvens carregadas, trazidas pelo sudoeste. O vento estava soprando forte desde o meio da tarde, e muito provavelmente o dia seguinte amanheceria chuvoso. No chão da praça as folhas das amendoeiras eram varridas por uma vassoura invisível e grãos de areia batiam em meu corpo como pequenos meteoritos. Comecei a sentir frio. Abandonei meu posto de vigia meteorológico e caminhei de costas ao vento em busca de um abrigo em alguma rua paralela à praia, atrás dos prédios da orla. Na segunda paralela havia um bar (na verdade, pouco mais que um botequim) que eu costumava frequentar eventualmente. Lá serviam caldos saborosos e baratos, perfeitos para aquele momento. Pedi o caldo verde. Pedi uma cerveja. E outras cervejas; fiquei até tarde, sozinho na mesa, até começar uma chuvinha miúda, insistente, que me fez perceber o quão difícil seria chegar em casa, não tão próxima de onde eu estava. Como eu sabia que essas chuvinhas só fazem engrossar, pedi a conta e zarpei contra o vento e a chuva, arribando e orçando ao embalo das cervejas...