Escrevo à mão, lentamente, como no tempo dos cadernos de caligrafia. Muitas vezes durante a tarefa, eu olhava pelas largas janelas da Escola, defronte ao Parque, e imaginava heroicas aventuras, me encantava com a luz e sombras das árvores, acompanhava os voos dos pardais. Mas a professora logo me trazia de volta ao trabalho. Retomava o caderno, preenchia mais algumas linhas, nem sempre com capricho, e aguardava ansioso o toque da sirene para o recreio. E o caderno de caligrafia era fechado rapidamente com prazer. Naturalmente, ainda não dava importância a esse exercício enfadonho...
Mas eu quase não descia para o recreio. Merenda feita por minha mãe: pão francês canoa com ovo mexido e uma garrafinha com Nescau. Não pedia a ela para mudar a merenda. Ainda hoje aprecio pão francês canoa com mexido e Nescau...
Estudei na Escola dos 7 aos 10 anos; morávamos em uma casa perto à Escola, e caminhava indo e voltando para casa. Aos 9 anos, mudamos para um apartamento onde fora minha primeira casa, também perto da Escola. Gostava de caminhar.
Quando terminavam as aulas, circulava no Parque observando as árvores, os patos nos laguinhos, os barrigudinhos buscando farelos de pão que eu jogava para eles. Também me aventurava nas quadras ao redor do Parque. Mas um dia, demorei demais a chegar em casa. Minha mãe, é claro, ficou aflita, e pediu ajuda a um vizinho amigo que morava no prédio ao lado. Ele estava aposentado e tinha um carro. Foram pelas ruas a me procurar. Não demorou muito a me encontrarem. Minha mãe, em prantos, suplicando que eu não mais fizesse isso. Apenas me abraçou. O senhor me olhou com um viés aterrorizante...
