sexta-feira, 14 de agosto de 2026

        O grande  relógio defronte à praça marcou seis horas enquanto eu a atravessava. Na larga avenida que margeia a praia o trânsito estava lento. Nos ônibus lotados as pessoas voltavam para casa. Nas pistas em direção ao Centro o movimento era mais tranquilo, mas sobre tudo, pairava um clima tenso, nervoso.

        Sentei-me em um banco junto à grande amendoeira e olhei para além do burburinho, para o outro lado da baía, onde o sol já se escondia entre nuvens carregadas, trazidas pelo sudoeste. O vento estava soprando forte desde o meio da tarde, e muito provavelmente o dia seguinte amanheceria chuvoso. No chão da praça as folhas das amendoeiras eram varridas por uma vassoura invisível e grãos de areia batiam em meu corpo como pequenos meteoritos. Comecei a sentir frio. Abandonei meu posto de vigia meteorológico e caminhei de costas ao vento em busca de um abrigo em alguma rua paralela à praia, atrás dos prédios da orla. Na segunda paralela havia um bar (na verdade, pouco mais que um botequim) que eu costumava frequentar eventualmente. Lá serviam caldos saborosos e baratos, perfeitos para aquele momento. Pedi o caldo verde. Pedi uma cerveja. E outras cervejas; fiquei até tarde, sozinho na mesa, até começar uma chuvinha miúda, insistente, que me fez perceber o quão difícil seria chegar em casa, não tão próxima de onde eu estava. Como eu sabia que essas chuvinhas só fazem engrossar, pedi a conta e zarpei contra o vento e a chuva, arribando e orçando ao embalo das cervejas...


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

        No terceiro  ano ginasial tive uma professora de Geografia - lamentavelmente já não lembro seu nome - que foi para mim um marco geodésico, com perdão do símile...

      Em uma aula a respeito do Saara, ela lembrou-se de recomendar à turma a leitura de "Terra dos homens", de Saint- Éxupéry.

       Em casa de meus pais haviam alguns títulos desse autor, em francês, e eu disse a meu pai que gostaria de ler aquele livro. Não tardou que ele o comprasse para mim, em português, naturalmente...

            A primeira tradução foi de Rubem Braga. A Obra de Éxupéry já está em domínio público, e outras traduções já foram feitas.

             Eu, é claro, já havia lido "O Pequeno Príncipe", que se passa no cerne mesmo do deserto. Mas "Terra dos Homens" lançou uma nova luz, mais concreta (mas não menos poética), a respeito das vivências de Saint-Ex. como um dos pioneiros no correio aéreo. O livro é  uma elegia, uma reflexão sobre o ofício do aviador, uma elegia aos ofícios (como em "Cidadela", que eu, tempos depois, folhearia sempre e sempre ao acaso, tal se faz com a Bíblia).

      Posso aqui fazer minhas as palavras de Fernando Pessoa/Bernardo Soares em seu livro "Livro do desassossego" quando relata a emoção de ler pela primeira vez um trecho de Vieira, e dizer que jamais o poderia ler como da primeira vez, como o rio heraclitiano...

                Essas linhas me foram inspiradas pelo Dia do Professor. Posso afirmar, sem erro, que aquela Mestra lançou uma semente em terra fértil, no meu caso. Um grão de mostarda quiçá despercebido de muitos a meu redor, naquele momento. Gosto de imaginar que outros colegas tenham também lido o livro. E que esse livro tenha indicado a eles horizontes mais amplos, como a mim.


        

              

       

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

 Do ideal e do possível


        Machado de Assis, em seu conto "Um homem célebre", nos apresenta um drama que penso atormentar a muitos artistas.

            A narrativa machadiana focaliza a frustração de um compositor popular que, sem esforço, quase como quem respira, tira ao piano polcas leves e ligeiras. Tão logo publicadas, caem no gosto do público; mas seu desejo profundo é compor algo mais 'subido', mais ao nível de seus ídolos musicais: Mozart, Beethoven, Gluck e outros luzeiros de igual grandeza. 

             Pestana (esse é o nome do nosso sofredor) porfia longas horas noturnas com o piano, mas tudo o que dele extrai, por força da obstinação, é pífio, ou um plágio involuntário de seus ídolos. Suas polcas, no entanto, brotam fluidas. Mas Pestana quase as desdenha; ele quer 'a grande música'... Não basta a ele o sucesso de suas composições, executadas nos bailes e assobiadas cidade afora, e que lhe garantem o pão. Pestana almeja mais: entrar no Panteão dos Grandes e ser lembrado pelos séculos dos séculos. O sucesso junto a seus contemporâneos pouco significa: ele mira o futuro. Assim, de polca a polca, vai Pestana tocando a vida, até que uma febre perniciosa o liberta, por fim, e ele morre 'bem com o mundo, mal consigo mesmo'.

                 Trazendo a reflexão sugerida por Machado para este texto: todos - em princípio - podem, em algum momento, decidir dedicar-se à arte, seja ela qual for. Porém, ninguém é capaz de decidir tornar-se um grande artista. Ademais, a valoração das artes (antigamente, Artes Maiores, Artes Menores), assim como a valoração dos artistas, é algo absolutamente subjetivo e modifica-se ao longo do tempo, como nos tem mostrado a história da arte.

               Julgo que alguns artistas têm o talento e o gênio suficientes para realizar seu desejo e sua necessidade de expressão artística. E o que se espera do artista? Que nos confirme nossas crenças, nosso gosto estético, nossa visão de mundo? Ele cria porque precisa criar; não está visando um determinado público. O artista cria algo a partir de tudo aquilo que o tocou, impregnou sua sensibilidade; e precisa fazer isso, dia após dia, ainda que sob condições adversas e talvez com fome.

                Mas, ao levar à sociedade o resultado de seu trabalho, de suas descobertas e perplexidades, é humano, demasiadamente humano, desejando receber alguma atenção, algum reconhecimento. Mais que isso, e antes, o artista quer poder viver de seu trabalho, para o seu trabalho, e como todos os viventes, precisa dar sustento ao corpo.

                    Pestana conseguia, simultaneamente, sustentar-se e granjear popularidade com o seu trabalho. Era, sem dúvida, um mestre na polca, apesar de si mesmo. Seu mal era ter um grande, um enorme desejo de compor melodias sublimes sem ter o gênio para tanto. Fico a imaginar quantos Pestanas existirão pelo mundo, amargurados, em demanda de um Graal desde sempre inalcançável...



 O desconhecido 

  

        Dez horas da noite. Me preparando para dormir. Alguém chama meu nome por três vezes no portão. Acendo a lâmpada do portão. Vou à janela. Não reconheço a voz. Não reconheço o rosto. Pergunto: quem é você? Ele responde: não me conhece mais? Digo: não, não conheço. O que você quer? Ele: você não lembra daquele dia em que nos conhecemos lá no bar do Zé? Respondo: absolutamente não. Ele fala: deixa disso, amigo... tá de brincadeira? Digo: você é que está de brincadeira. Por favor, me deixe ir dormir. Diz ele: é muito cedo para alguém como você. Não lembra das noitadas, das caminhadas nas madrugadas, dos pileques? Falo: francamente, não. Não gosto de boemia. Aí ele gargalha, gargalha... Eu começo a ficar irritado; digo a ele que vá embora antes que eu solte os cachorros. Ele diz: sei que você não tem cachorros, só gatos... Eu comigo mesmo: cacete, que intruso... deve estar me vigiando dia e noite, sem que eu saiba. Então falei: mas posso chamar os PMs. Ele: isso seria muito interessante, amigo. Eu: como assim interessante? Ele: chama eles, e você vai ver... tenho comigo várias fotografias das nossas peripécias: invertendo os dizeres dos filmes nas placas do cinema, puxando carros, bebendo e escapulindo dos bares sem pagar, panfletos nos postes com mensagens obscenas e tantas outras coisas...

        Fiquei embasbacado... Como eu poderia ter participado disso? Falei: você tem DE FATO essas fotografias? Ele: estão aqui comigo. E também tenho outras provas, tais como placas de trânsito, placas de carros, cinzeiros de bares, tulipas, canecas... Quer verificar antes de chamar a PM? Longo silêncio meu... Ele: E aí? Não tem coragem de ver o que tenho sobre nós? Mais um silêncio meu... Falei: Tá bem; vou ao portão para conferir. Mas não vou abrir o portão. Ele: quando você vier, vai abrir o portão, com certeza.

        Fui. Vi. Abri o portão: era a minha Sombra.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Escrevo à mão, lentamente, como no tempo dos cadernos de caligrafia. Muitas vezes durante a tarefa, eu olhava pelas largas janelas da Escola, defronte ao Parque, e imaginava heroicas  aventuras, me encantava com a luz e sombras das árvores, acompanhava os voos dos pardais. Mas a professora logo me trazia de volta ao trabalho. Retomava o caderno, preenchia mais algumas linhas, nem sempre com capricho, e aguardava ansioso o toque da sirene para o recreio. E o caderno de caligrafia era fechado rapidamente com prazer. Naturalmente, ainda não dava importância a esse exercício enfadonho...

Mas eu quase não descia para o recreio. Merenda feita por minha mãe: pão francês canoa com ovo mexido e uma garrafinha com Nescau. Não pedia a ela para mudar a merenda. Ainda hoje aprecio pão francês canoa com mexido e Nescau...

Estudei na Escola dos 7 aos 10 anos; morávamos em uma casa perto à Escola, e caminhava indo e voltando para casa. Aos 9 anos, mudamos para um apartamento onde fora minha primeira casa, também perto da Escola. Gostava de caminhar.

Quando terminavam as aulas, circulava no Parque observando as árvores, os patos nos laguinhos, os barrigudinhos buscando farelos de pão que eu jogava para eles. Também me aventurava nas quadras ao redor do Parque. Mas um dia, demorei demais a chegar em casa. Minha mãe, é claro, ficou aflita, e pediu ajuda a um vizinho amigo que morava no prédio ao lado. Ele estava aposentado e tinha um carro. Foram pelas ruas a me procurar. Não demorou muito a me encontrarem. Minha mãe, em prantos, suplicando que eu não mais fizesse isso. Apenas me abraçou. O senhor me olhou com um viés aterrorizante...