O grande relógio defronte à praça marcou seis horas enquanto eu a atravessava. Na larga avenida que margeia a praia o trânsito estava lento. Nos ônibus lotados as pessoas voltavam para casa. Nas pistas em direção ao Centro o movimento era mais tranquilo, mas sobre tudo, pairava um clima tenso, nervoso.
Sentei-me em um banco junto à grande amendoeira e olhei para além do burburinho, para o outro lado da baía, onde o sol já se escondia entre nuvens carregadas, trazidas pelo sudoeste. O vento estava soprando forte desde o meio da tarde, e muito provavelmente o dia seguinte amanheceria chuvoso. No chão da praça as folhas das amendoeiras eram varridas por uma vassoura invisível e grãos de areia batiam em meu corpo como pequenos meteoritos. Comecei a sentir frio. Abandonei meu posto de vigia meteorológico e caminhei de costas ao vento em busca de um abrigo em alguma rua paralela à praia, atrás dos prédios da orla. Na segunda paralela havia um bar (na verdade, pouco mais que um botequim) que eu costumava frequentar eventualmente. Lá serviam caldos saborosos e baratos, perfeitos para aquele momento. Pedi o caldo verde. Pedi uma cerveja. E outras cervejas; fiquei até tarde, sozinho na mesa, até começar uma chuvinha miúda, insistente, que me fez perceber o quão difícil seria chegar em casa, não tão próxima de onde eu estava. Como eu sabia que essas chuvinhas só fazem engrossar, pedi a conta e zarpei contra o vento e a chuva, arribando e orçando ao embalo das cervejas...