sábado, 22 de agosto de 2026

Descanso  ao Meio-dia


Sol alto, descansar, pálido, absorto,

junto ao muro em ruinas de algum horto, 

ouvir entre os espinhos incidentes

de melros, estalidos de serpentes.

Pelas gratas do chão, na trepadeira,

espiar as formigas peregrinas 

que se dispersam ou se vão cruzando

nas encostas de mínimas colinas.

Quando de cimos altos se sentir

as trêmulas cigarras a zinir,

entre as folhagens, perceber o mar

escamoso, ao longe, a latejar.

E caminhando ao sol que nos navalha,

sentir, com nosso triste alumbramento,

como é toda existência e sua estafa,

neste prosseguimento, uma muralha

que têm em cima cacos de garrafa.


Paulo Mendes Campos, Diário da Tarde, Civilização Brasileira/Massao Ohno, 1981


Nenhum comentário:

Postar um comentário