Descanso ao Meio-dia
Sol alto, descansar, pálido, absorto,
junto ao muro em ruinas de algum horto,
ouvir entre os espinhos incidentes
de melros, estalidos de serpentes.
Pelas gratas do chão, na trepadeira,
espiar as formigas peregrinas
que se dispersam ou se vão cruzando
nas encostas de mínimas colinas.
Quando de cimos altos se sentir
as trêmulas cigarras a zinir,
entre as folhagens, perceber o mar
escamoso, ao longe, a latejar.
E caminhando ao sol que nos navalha,
sentir, com nosso triste alumbramento,
como é toda existência e sua estafa,
neste prosseguimento, uma muralha
que têm em cima cacos de garrafa.
Paulo Mendes Campos, Diário da Tarde, Civilização Brasileira/Massao Ohno, 1981
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