sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Janela aberta 


Vontade de escrever um poema.

Como Drummond, talvez?

Não, não me atreveria...

Apenas um poema

que dissesse tudo aquilo

que já foi dito

e ninguém escutou, ao que parece.

Algo há milhares de anos já sabido.

Algo que nos roça a pele, e passamos.

Passamos atribulados, endividados, explorados

e não vemos.

Meus sapatos são mesmo muito meus...

Houve um pássaro

azul e doido

que se esfacelou na asa do avião

disse Drummond, contrito,

em um momento de terrível confissão.

Sim, meu Mestre, e essa confissão é universal.

Triste farol da Ilha Rasa, que assinala o Sul-Norte

no alinhamento com o farol da Laje.

As barcas Rio-Niterói cruzam essa linha dia e noite, anos a fio,

e quantas vezes busquei aquele exato instante...

O aeroporto em frente nos dá lições de partida

disse Bandeira.

Mas uma voz nos diz: 

no fundo do desespero, contra tudo,

há uma janela aberta, iluminada.




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