Janela aberta
Vontade de escrever um poema.
Como Drummond, talvez?
Não, não me atreveria...
Apenas um poema
que dissesse tudo aquilo
que já foi dito
e ninguém escutou, ao que parece.
Algo há milhares de anos já sabido.
Algo que nos roça a pele, e passamos.
Passamos atribulados, endividados, explorados
e não vemos.
Meus sapatos são mesmo muito meus...
Houve um pássaro
azul e doido
que se esfacelou na asa do avião
disse Drummond, contrito,
em um momento de terrível confissão.
Sim, meu Mestre, e essa confissão é universal.
Triste farol da Ilha Rasa, que assinala o Sul-Norte
no alinhamento com o farol da Laje.
As barcas Rio-Niterói cruzam essa linha dia e noite, anos a fio,
e quantas vezes busquei aquele exato instante...
O aeroporto em frente nos dá lições de partida
disse Bandeira.
Mas uma voz nos diz:
no fundo do desespero, contra tudo,
há uma janela aberta, iluminada.
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