CARTA
Por qual palavra começar, caro amigo...
Por qual angústia, temor, lembrança?
Vejo homens e mulheres que trabalham para a Cidade e moram no desterro; as mulheres que não servem à Cidade, de tempos em tempos levam em seu ventre os futuros homens, as futuras mães. Em frente a um tanque de roupas ralas, ralam o ventre, e algumas cantam.
Sim, algumas cantam, amigo!
Quando finda o dia os homens se encontram nas tascas, e já tarde da noite, bêbados, trazem um minguado dinheiro e se julgam senhores e as mulheres com eles se deitam, mas não cantam. Elas nem mesmo gozam, os homens rapidamente já roncam a seu lado.
Ah, meu amigo, estou a generalizar...
Os trens. Eu descia para a Cidade. O trem para Santa Cruz passou abarrotado, sem luz, no lusco-fusco do dia. Isso eu vi, não foi hoje, mas há 50 anos. Vi também homens e mulheres e jovens e crianças atravessando os trilhos. E agora, todas as manhãs, logo cedo, ouço no rádio que homens, mulheres, jovens e crianças ainda atravessam os trilhos, as composições se atrasam ou não chegam, os cabos são roubados, as estações são depredadas, e ninguém mais suporta. Mas a tarifa aumenta.
Ah, amigo! Somos ingênuos? Ou cegos, surdos, mudos?
No conforto de nossa casa, cercada por muros, e com treze poderosos gatos vigiando, noite e dia, as redondezas, julgo estar em segurança...
Não muito longe de nós, entretanto, os cânticos monocórdios do rap e do funk, nas madrugadas de sexta a domingo, enviam claras mensagens...
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