segunda-feira, 10 de agosto de 2026

 O desconhecido 

  

        Dez horas da noite. Me preparando para dormir. Alguém chama meu nome por três vezes no portão. Acendo a lâmpada do portão. Vou à janela. Não reconheço a voz. Não reconheço o rosto. Pergunto: quem é você? Ele responde: não me conhece mais? Digo: não, não conheço. O que você quer? Ele: você não lembra daquele dia em que nos conhecemos lá no bar do Zé? Respondo: absolutamente não. Ele fala: deixa disso, amigo... tá de brincadeira? Digo: você é que está de brincadeira. Por favor, me deixe ir dormir. Diz ele: é muito cedo para alguém como você. Não lembra das noitadas, das caminhadas nas madrugadas, dos pileques? Falo: francamente, não. Não gosto de boemia. Aí ele gargalha, gargalha... Eu começo a ficar irritado; digo a ele que vá embora antes que eu solte os cachorros. Ele diz: sei que você não tem cachorros, só gatos... Eu comigo mesmo: cacete, que intruso... deve estar me vigiando dia e noite, sem que eu saiba. Então falei: mas posso chamar os PMs. Ele: isso seria muito interessante, amigo. Eu: como assim interessante? Ele: chama eles, e você vai ver... tenho comigo várias fotografias das nossas peripécias: invertendo os dizeres dos filmes nas placas do cinema, puxando carros, bebendo e escapulindo dos bares sem pagar, panfletos nos postes com mensagens obscenas e tantas outras coisas...

        Fiquei embasbacado... Como eu poderia ter participado disso? Falei: você tem DE FATO essas fotografias? Ele: estão aqui comigo. E também tenho outras provas, tais como placas de trânsito, placas de carros, cinzeiros de bares, tulipas, canecas... Quer verificar antes de chamar a PM? Longo silêncio meu... Ele: E aí? Não tem coragem de ver o que tenho sobre nós? Mais um silêncio meu... Falei: Tá bem; vou ao portão para conferir. Mas não vou abrir o portão. Ele: quando você vier, vai abrir o portão, com certeza.

        Fui. Vi. Abri o portão: era a minha Sombra.

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