sábado, 15 de março de 2008

Um poema de Marcos Moreira

Frans Masereel

18



Achando-se cada vez mais parecido com o pai
- no jeito de segurar o cigarro -
e com as tias
- na magreza -
ultrafundos seus olhos em tudo quanto mais
números de muitas passadas pelo centro da cidade
- como seu pai também médico -
mangas da camisa levantadas, lassa a gravata,
jogado o paletó ao ombro estende-se sua avidez,
sentindo-se inteiramente um descendente
- Não há uma só parte minha que
eu não saiba a quem pertenceu...
facúndia e umidade no deserto todavia,
alguém de cabelos platinos muitos e finos,
alguém continuamente inclinado
- pelo vento, pela terra, pela mulher -
a literatura veracidade América.


da plaquete "Cidade", ed. do autor, Rio, 1995






quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O Velho Chico

A transposição do São Francisco é matéria polêmica. Para conhecer as razões de quem é contrário a essa obra, visite www.umavidapelavida.com.br .

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Terra dos homens

"A terra nos ensina mais sobre nós mesmos que todos os livros. Porque ela nos resiste. O homem se descobre ao medir-se com o obstáculo. Mas, para enfrentá-lo, ele precisa de uma ferramenta. Ele precisa de uma plaina, ou uma charrua. O lavrador, em sua labuta, arranca pouco a pouco alguns segredos à natureza, e a verdade que ele extrai é universal. Assim o avião, ferramenta das linhas aéreas, envolve o homem em todos os velhos problemas.
Tenho ainda, diante dos olhos, a imagem de minha primeira noite de vôo na Argentina - uma noite escura onde cintilavam isoladas, como estrelas, as raras luzes esparsas na planície.
Cada uma assinalava, naquele oceano de trevas, o milagre de uma consciência. Naquele lar, alguém lia, ou meditava, ou entregava-se a confidências. Naquele outro, talvez, alguém procurava sondar o espaço, consumia-se em cálculos a respeito da nebulosa de Andrômeda. Mais além, alguém amava. De longe em longe luziam esses fogos na campanha, pedindo sustento. Até os mais discretos: o do poeta, o do professor, o do carpinteiro. Mas entre essas estrelas vivas, quantas janelas fechadas, quantas estrelas extintas, quantos homens adormecidos...
É preciso fazer um esforço para se reunir. É preciso tentar se comunicar com alguns desses fogos que ardem, de longe em longe, na campanha."
Antoine de Saint-Exupéry, preâmbulo a 'Terre des hommes' , Ed. Gallimard(poche), Paris, 2000.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

O Sapo Verde

Aquele amarelo que apareceu um dia em nossa terra, ou por outra, aquele japonês, pois não sei se um chim daria o mesmo desfecho ao caso, dedicava-se a trabalhos de papel. Com incrível celeridade, dobrava, redobrava, multidobrava, premia aqui, puxava ali, e pronto: saía um pato, uma cesta, um avião, um urso, um homem sentado, uma mulher dançando, um navio, todas as coisas que há no mundo. Algumas dessas habilidades, ele as fazia às vezes em câmara lenta, para que a gente pudesse aprender. Mas era impossível guardar de memória o segredo do sapo verde, o maravilhoso sapo verde que comportava nada menos de sessenta e quatro dobras e que dava um salto quando lhe tocavam no lombo. Comprei um e fui para casa desmanchá-lo. Ficou-me nas mãos um quadrado de papel, inextricavelmente entrecruzado de vincos. Como não consegui fazer a operação contrária, isto é, rearmar o sapo, dali a dias encomendei outro.
- Hoje não poder - disse ele.
- Por quê?
- Por acabar papel verde.
- E por que não faz um sapo branco?...ou um sapo azul...ou um sapo vermelho...ou...
Mas o seu quase imperceptível sorriso de comiseração cortou-me a linda seqüência colorida.


Mário Quintana, Poesias, 2ª ed., Ed. Globo/MEC, Porto Alegre, 1972.