TORSO
Torcendo o torso virava o volante da escavadora
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas
Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos do Pérgamo
Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos
MEIO-DIA
Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo,
Parece bater palmas.
Poemas Escolhidos, Seleção de Vilma Arêas, Companhia das Letras, São Paulo, 2004
Ps. Transcrevi o poema tal e qual se encontra no citado livro. Entretanto, creio que uma vírgula foi omitida no verso "E o mar imenso solitário e antigo,"; tudo me leva a crer que entre imenso e solitário deve existir a vírgula.
Favor me corrigirem.
sábado, 24 de maio de 2008
domingo, 27 de abril de 2008
Jayro José Xavier
Notas para uma poética
Um poema se escreve sob granizo, ou nas frentes de inverno,
quando nos protegemos sob casamatas de zinco
Um poema se escreve quando a noite caiu e nem um fósforo
Um poema se escreve quando é preciso renascer das cinzas
- quando todos, para ganhar a vida, se tornaram
zelosos funcionários da Morte
Um poema não se escreve com a razão
Um poema se escreve com as mãos
como quem reza
como quem toma nas mãos um punhado de terra
O caracol
Mora entre as sombras eternas do fundo do pátio
e não canta. Antes inclina as antenas
e capta
a branda aspereza do dia
À noite sai,
tece uma seda líquida nos ladrilhos de cimento
Nem é um bicho, é
um silêncio
lentíssimo - mucosa e casa
movendo-se
Sábio molusco
No estio adverso encolhe-se feito feto
na valva em espiral. E adere
- úmido -
à dura pele da terra
(todo ele concha
e nostalgia
da unidade)
Um poema se escreve sob granizo, ou nas frentes de inverno,
quando nos protegemos sob casamatas de zinco
Um poema se escreve quando a noite caiu e nem um fósforo
Um poema se escreve quando é preciso renascer das cinzas
- quando todos, para ganhar a vida, se tornaram
zelosos funcionários da Morte
Um poema não se escreve com a razão
Um poema se escreve com as mãos
como quem reza
como quem toma nas mãos um punhado de terra
O caracol
Mora entre as sombras eternas do fundo do pátio
e não canta. Antes inclina as antenas
e capta
a branda aspereza do dia
À noite sai,
tece uma seda líquida nos ladrilhos de cimento
Nem é um bicho, é
um silêncio
lentíssimo - mucosa e casa
movendo-se
Sábio molusco
No estio adverso encolhe-se feito feto
na valva em espiral. E adere
- úmido -
à dura pele da terra
(todo ele concha
e nostalgia
da unidade)
domingo, 20 de abril de 2008
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Miguel Torga
Revelação feita ao Poeta
O templo era de luz e de granito,
E na fachada, a fogo, estava escrito
Um aviso de trágico desdém.
Dizia assim a olímpica inscrição:
Esta deusa não ergue a sua mão
Para servir ninguém.
Nihil Sibi, 3ª ed., Coimbra, 1975
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Enquanto escrevia
Enquanto escrevia, uma árvore começou a penetrar-me lentamente a mão direita. A noite chegava com esses antiquíssimos mantos; a árvore ia crescendo, escolhendo para domínio as águas mais espessas do meu corpo. Era realmente eu, este homem sem desejos de outro corpo estendido ao lado? Já não me lembro; passava os dias a dormir à sombra daquela árvore; era o último verão. Às vezes sentia passar o vento, e pedia apenas uma pátria, uma pátria pequena e limpa como a palma da mão. Isso pedia; como se tivesse sede.
Eugénio de Andrade, Memória Doutro Rio, Limiar, Porto, 1978
Grifos nossos.
Eugénio de Andrade, Memória Doutro Rio, Limiar, Porto, 1978
Grifos nossos.
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