A MEMÓRIA É UM NOVELO
Novelo
de pequenas
artérias
rebentadas
por ali
escorre
a memória
a pulsação
que dói
quem não recorda
não vive
não desenrola
o fio
que redime
PAUL CELAN
1.
Cultivemos a planta
do silêncio: negro-musgo.
Dizer o nome
é perturbar o sono
Deixemo-lo
que se afunde
nas suas águas mortas.
2.
O destino
essa flor que se abre
raiz plantada no ar
3.
O amor é uma travessia?
O amor é um afundamento
4.
Quantos poemas
para salvar o dia
Quantos poemas
para salvar a vida
Entre Silêncios, Pedra Formosa Edições, Guimarães, 1997
Yvette K. Centeno, é autora de poesia, teatro, ficção, literatura infantil e ensaio.
Administra dois excelentes blogs: Literatura e Arte e Simbologia e Alquimia. Vale a pena visitá-los. O primeiro deles está em um link neste blog.
terça-feira, 10 de junho de 2008
sábado, 24 de maio de 2008
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)
TORSO
Torcendo o torso virava o volante da escavadora
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas
Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos do Pérgamo
Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos
MEIO-DIA
Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo,
Parece bater palmas.
Poemas Escolhidos, Seleção de Vilma Arêas, Companhia das Letras, São Paulo, 2004
Ps. Transcrevi o poema tal e qual se encontra no citado livro. Entretanto, creio que uma vírgula foi omitida no verso "E o mar imenso solitário e antigo,"; tudo me leva a crer que entre imenso e solitário deve existir a vírgula.
Favor me corrigirem.
Torcendo o torso virava o volante da escavadora
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas
Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos do Pérgamo
Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos
MEIO-DIA
Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo,
Parece bater palmas.
Poemas Escolhidos, Seleção de Vilma Arêas, Companhia das Letras, São Paulo, 2004
Ps. Transcrevi o poema tal e qual se encontra no citado livro. Entretanto, creio que uma vírgula foi omitida no verso "E o mar imenso solitário e antigo,"; tudo me leva a crer que entre imenso e solitário deve existir a vírgula.
Favor me corrigirem.
domingo, 27 de abril de 2008
Jayro José Xavier
Notas para uma poética
Um poema se escreve sob granizo, ou nas frentes de inverno,
quando nos protegemos sob casamatas de zinco
Um poema se escreve quando a noite caiu e nem um fósforo
Um poema se escreve quando é preciso renascer das cinzas
- quando todos, para ganhar a vida, se tornaram
zelosos funcionários da Morte
Um poema não se escreve com a razão
Um poema se escreve com as mãos
como quem reza
como quem toma nas mãos um punhado de terra
O caracol
Mora entre as sombras eternas do fundo do pátio
e não canta. Antes inclina as antenas
e capta
a branda aspereza do dia
À noite sai,
tece uma seda líquida nos ladrilhos de cimento
Nem é um bicho, é
um silêncio
lentíssimo - mucosa e casa
movendo-se
Sábio molusco
No estio adverso encolhe-se feito feto
na valva em espiral. E adere
- úmido -
à dura pele da terra
(todo ele concha
e nostalgia
da unidade)
Um poema se escreve sob granizo, ou nas frentes de inverno,
quando nos protegemos sob casamatas de zinco
Um poema se escreve quando a noite caiu e nem um fósforo
Um poema se escreve quando é preciso renascer das cinzas
- quando todos, para ganhar a vida, se tornaram
zelosos funcionários da Morte
Um poema não se escreve com a razão
Um poema se escreve com as mãos
como quem reza
como quem toma nas mãos um punhado de terra
O caracol
Mora entre as sombras eternas do fundo do pátio
e não canta. Antes inclina as antenas
e capta
a branda aspereza do dia
À noite sai,
tece uma seda líquida nos ladrilhos de cimento
Nem é um bicho, é
um silêncio
lentíssimo - mucosa e casa
movendo-se
Sábio molusco
No estio adverso encolhe-se feito feto
na valva em espiral. E adere
- úmido -
à dura pele da terra
(todo ele concha
e nostalgia
da unidade)
domingo, 20 de abril de 2008
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Miguel Torga
Revelação feita ao Poeta
O templo era de luz e de granito,
E na fachada, a fogo, estava escrito
Um aviso de trágico desdém.
Dizia assim a olímpica inscrição:
Esta deusa não ergue a sua mão
Para servir ninguém.
Nihil Sibi, 3ª ed., Coimbra, 1975
Assinar:
Postagens (Atom)